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27 out 2025

Comunicação digital amplia acesso ao acervo do Memorial Casa de Afonso Pena

Uma das bibliotecas jurídicas mais antigas do país, seu acervo conta com obras raras publicadas entre os séculos XVII e XX

Uma das bibliotecas jurídicas mais antigas do Brasil, o Memorial Casa de Afonso Pena, tem um acervo raro, que nasceu junto com a Faculdade Livre de Direito de Minas Gerais, em 1892. São 35 mil livros editados entre os séculos XVII e XX, incluindo preciosidades como manuscritos e publicações com dedicatórias, autos de processos judiciais antigos, teses e dissertações, fotografias e pinturas – obras que preservam não só as memórias da instituição. Preservam a história do ensino jurídico e do direito nacional. 

Embora esse acervo tenha um valor histórico imensurável, o acesso às suas obras esbarra em um contexto menos grandioso: o Memorial, que ocupa hoje o segundo andar da Biblioteca Prof. Lydio Machado Bandeira de Mello, na Faculdade de Direito da UFMG, tem uma infraestrutura modesta, o que reduz sua capacidade de visitação e pesquisa.

Em razão desses entraves, o acervo não é conhecido por boa parte da comunidade acadêmica, tampouco pela população, conta Leo Drumond, presidente da Associação Voz, entidade que idealizou uma série de ações para ampliar o acesso às obras do Memorial Casa de Afonso Pena. Por meio de projeto aprovado na plataforma Semente, do Ministério Público de Minas Gerais, a associação conseguiu tirar as ideias do papel. Dentre as iniciativas, está a comunicação com foco no digital, para garantir que o acervo chegue a um número maior de pessoas – trabalho que é feito de forma conjunta com o coordenador do memorial, o historiador do direito Ricardo Sontag.

“Sonhar, nós sonhamos muito. Dinheiro, nós temos pouco. Quando a direção da Faculdade conseguiu fazer a ponte entre o Memorial e a plataforma  Semente do MPMG, o recurso entrou e alguns dos nossos sonhos puderam se tornar realidade”, lembra o pesquisador. “Isso sem contar as ideias trazidas pela Associação Voz, que é quem gere os recursos do Semente para o Memorial, que ampliaram os nossos sonhos.”

Segundo Ricardo Sontag, “considerando que estamos em uma das Faculdades de Direito mais antigas do país, temos potencial para fazer do Memorial uma referência em história do ensino jurídico e do direito no Brasil, em função do acervo que nós temos e que pode vir a crescer no futuro”.

Ele ressalta que o escopo do projeto é tornar acessíveis informações relevantes para a memória institucional e social, bem como para a pesquisa científica. “Nós não nos vemos como uma instituição meramente de guarda, uma visão que pode fazer com que o público e os pesquisadores se tornem quase-inimigos, dos quais temos que defender nosso precioso acervo. Obviamente, a guarda é relevante, mas nós não queremos que a preocupação com a guarda atrapalhe o nosso escopo principal. O público e os pesquisadores, na verdade, são nossos aliados, pois é graças a eles que o nosso acervo ganha relevância e visibilidade, o que, na verdade, estimula o cuidado com tudo o que temos no Memorial.”

Comunicar e sensibilizar

Mais que ampliar o acesso às obras do Memorial em termos quantitativos, permitindo que muitos pesquisem digitalmente parte do seu acervo, as iniciativas de comunicação têm o intuito de fazer com que esse acesso propicie uma relação entre o público e a história do ensino jurídico brasileiro. História que leva a uma melhor compreensão dos rumos políticos e sociais do Brasil de hoje.

Para tanto, as iniciativas de comunicação congregam diversas frentes, explica Drumond. A primeira delas envolveu profissionais que realizaram um diagnóstico sobre a situação do acervo. “Munidos do diagnóstico, iniciamos um conjunto de ações, pensando na ampliação do acesso e visibilidade das suas obras, mas não só. A ideia é que essas ações permitam ao Memorial buscar outras fontes de recursos, especialmente para reformar e qualificar o espaço, além de garantir a preservação do acervo de maneira eficaz. E não se consegue esse tipo de recurso sem antes apresentar a qualidade e relevância do acervo.”

A segunda frente das iniciativas de comunicação envolve a digitalização de parte do acervo  do Memorial (disponível neste portal); a disponibilização de artigos inéditos que convidam a refletir sobre o tempo e a sociedade a partir de suas obras; e uma visita virtual à exposição com a trajetória do professor Lydio Machado Bandeira de Mello. Destaca-se, ainda, uma websérie que traz o olhar de figuras emblemáticas para a Faculdade de Direito da UFMG.

Segundo Leo Drumond, que dirige a websérie, a produção pode ser considerada como um memorial vivo. “Ou seja, um acervo oral constituído de depoimentos de pessoas que têm uma forte ligação com a instituição. Além disso, vamos contextualizar diversos períodos em que elas estudaram ou trabalharam na Faculdade de Direito, vamos trazer histórias dessas pessoas e das pessoas que elas conviveram e que não estão mais aqui. Além disso, a história oral traz um contexto afetivo para essas memórias e entendemos que é uma ferramenta poderosa para trabalhar conteúdo e sensibilização. ” 

Dialogar com um público diverso

Outro propósito das ações de comunicação é alcançar mais que a comunidade acadêmica, o que é um desafio, ressalta Leo Drumond, apesar do acervo ser de interesse público. “A Faculdade de Direito é uma instituição secular por onde passaram importantes nomes da história nacional e sempre teve uma atuação forte perante a sociedade. É justo que um projeto como esse busque divulgar esse conteúdo para além dos portões da instituição. Por esse motivo, a comunicação tem uma linguagem acessível, é visualmente interessante e tem interfaces atraentes.”

Isso não quer dizer conteúdo raso ou irrelevante, observa Drumond, “mas temos que encarar os desafios da comunicação contemporânea.  Nossa expectativa, em um primeiro momento, é que as pessoas descubram o acervo do Memorial. Não faz sentido essas preciosidades estarem escondidas. Pensando no médio e longo prazo, temos que contribuir de maneira efetiva para que o Memorial consiga disponibilizar mais conteúdo para um público amplo, melhore sua infraestrutura para atender esse público, seja presencialmente ou de maneira remota, e consiga preservar esse importante acervo.”